Em um dia da década de 1560, o alfaiate mercante Thomas Bradshaw foi detido e levado às autoridades. Seu crime: ele estava usando meias inadequadas. Tinham mais tecido do que o necessário. Certos tecidos eram de uso de grupos sociais aos quais ele não pertencia. Então, além da multa e aviso de que poderia ir para a cadeia na próxima falta, o alfaiate foi conduzido pela rua, humilhantemente sem um de seus pares de meia. Chegando em casa, o poder constituído inglês esperava que sua esposa também o repreendesse.
A lei que o Thomas havia infringido tinha raízes no reinado de Henrique VII. Sua filha, Elizabeth I detalhou melhor esse tipo de lei. Eram relativas aos “excesso do vestuário”. Na letra da lei os motivos eram claros: evitar confusão de classes sociais e evitar o consumo de tecidos estrangeiros.
Eram os anos de transição do regime feudal, da época de hegemonia dos nobres em comando, mas com burgueses assanhados (com ou sem dinheiro) querendo adentrar a corte, ou com gente querendo usar o que havia de melhor no exterior.
A historiografia que se encarregou dessas questões, não raro produziu narrativas distintas, talvez por causa da especialização dos historiadores modernos. A narrativa do historiadores da cultura, do vestuário, da moda etc. tendeu a enfatizar a utilidade da lei segundo a distinção social. A narrativa dos historiadores da economia não deixou de notar que leis desse tipo faziam parte dos preceitos da doutrina mercantilista, então vigente em parte da Europa.
Um dos ditames básicos do mercantilismo, que deixou ecos em teorias modernas e contemporâneas, é o de que a riqueza de uma nação se faz pela ampliação da exportação e diminuição da importação. O déficit da balança comercial é o que deve ser evitado. Essa regra não era boba. Mas o mercantilismo pareceu bobo a economistas posteriores, em especial aos liberais do século XVIII, por ele advogar também a ideia de que a riqueza da nação advinha da retenção do ouro e da prata. Eles, os mercantilistas, naturalizaram o valor do ouro e da prata. Foi isso que fez os espanhóis dizimarem as populações indígenas, em especial na América Espanhola. O sangue indígena derramado se vingou. Os fantasmas incas e de outros povos similares adentraram a Europa junto com o ouro, amaldiçoando o Velho Continente. A Espanha se entupiu de ouro. Uma inflação enorme acabou atingindo o país.
Bem depois, quando já havia passado a ênfase não só do ouro, mas também dos dizeres que computavam os bens da terra, a agricultura, como o que dava a riqueza do país, isto é, quando as ideias dos economistas “fisiocratas” entraram em declínio, vieram os liberais. Eles criticaram essa doutrinas todas e falaram que a riqueza de uma nação é indicada pelos bens e serviços produzidos. Era de certo modo uma ideia ancestral da que usamos hoje quando falamos do PIB. O liberalismo advogou o comércio livre entre as nações, pois o importante era a demanda. Se uma nação produz algo que a outra tem necessidade, o melhor modo de ambas atuarem é por aquilo que poderíamos chamar de divisão do trabalho entre regiões e países. O senso comum liberal advoga hoje essa ideia. Ela tem lá seu pé no bom senso. Mais de cem anos depois o sociólogo francês Durkheim usou dessa ideia para sociedade e indivíduos: é a divisão do trabalho que cria cooperação: cada macaco no seu galho, disse um dias desses Lula, espelhando essa ideia em relação às nações.
Mas a ideia dos liberais, de divisão do trabalho entre nações, ou internamente entre indivíduos, não estava baseada na ideia de solidariedade, mas em neutralidade da solidariedade a partir da demanda. As pessoa não valiam para a economia por suas honestidades, embora fosse bom que fossem honestas. Mas valiam pela busca de satisfazer interesses bem pessoais, até mesmo egoístas. Iriam tentar se sair bem diante de demandas variadas, e isso, no frigir do ovos, no computo geral, por meio do mercado, iriam ajustas compras e vendas segundo as necessidades de povos e pessoas. Adam Smith passou para a consciência popular como o autor que falou da “mão invisível” do mercado. Uma vez livre, o mercado ajustaria as demanda recíprocas. O liberalismo se tornou uma ideia poderosa.
Mas a sombra do mercantilismo, tirando sua tara pelo ouro, não desapareceu. Ideias mercantilistas ressurgiram em teorias que, grosso modo, poderíamos chamar de desenvolvimentistas. Elas foram aplicadas por regimes políticos diversos. Por essas ideias, a exportação deveria ser privilegiada, e a importação tratada segundo taxações. Assim, a alfândega ganhou nova importância, se aliada a novas medidas internas. Junto com o cuidado co a alfândega, vieram os subsídios e isenções tributárias setoriais, e vários países buscaram operar no século XX com essas teorias de intervenção estatal na economia. Pego exemplos díspares, para que notemos só a ideia geral: a Alemanha nazista, a China atual, o Brasil do final dos anos cinquenta e, enfim, até mesmo as nações paladinas do liberalismo e neoliberalismo, como os Estados Unidos, se guiaram por ecos mercantilistas acoplados a disponibilizações do estado no fomento da produção agrícola ou industrial interna. Hoje em dia, quando algum bobinho fala “nossa, socialista de Iphone!”, poderíamos retrucar, “você teve ou tem um carro Volks?” E se sim, poderíamos continuar: “nossa, liberal de carro nazista!”. Liberalismo com proteção de mercados nacionais foram se acomodando durante o século XX.
Nos dias atuais, após frenesi de êxitos do neoliberalismo (êxitos cantado por ele mesmo), ou de crises que ele não pode omitir, a segunda gestão de Trump repete diretrizes da primeira. Eis que um tipo de radicalização de mercantilismo arcaico é lançado contra o neoliberalismo que, enfim, teria sido vigente nos anos do que até pouco tempo chamávamos de globalização. Os neoliberais a idolatravam – a globalização. A esquerda a condenava. O neoliberalismo não acabou com a investida Trump, só o nome globalização caiu em desuso. Trump está tentando dar um solavanco esquisito em parte da doutrina liberal. A esquerda parece que sente que não deveria ter rezado para nenhum anjo realizar o fim da globalização. O fim não veio, mas veio alguém com suficiente capacidade de destruição de tudo, e que quer realizar as coisas segundo um pedido atendido por um anjo torto. Para rezar, é necessário especificar bem, nem sempre os deuses estão do nosso lado ou são a favor da felicidade que nós, da esquerda, achamos possível. Escrevam e revisem orações antes de ir aos templos!
O certo é que, em cada país, os empresários dito liberais não se esquecem de entrar em acordo com o governo para pedir taxações de produtos estrangeiros, subsídios e isenções tributárias, ainda que os seus economias falem o contrário. Quando há setores que estão despontando, eles mesmos pedem intervenção de estado; pedem algo dos bancos públicos. O estado aposta neles. Se falham, as perdas são socializadas. Se lucram, os lucros são privatizados. O neoliberalismo americano faz assim. As big techs cresceram assim. Certos lugares tentam imitar, mas às vezes se complicam nesses financiamentos, criando setores que não tinham condição de ir adiante de modo algum, e ficam morosos, e prejudicam todos ampliando a dívida pública, e então eis que muitos ganham com títulos da dívida. O dinheiro a juro se torna um negócio melhor que qualquer abertura de empresas e empregos. A lógica do que Marx chamou de “capital fictício”, o dinheiro que vira dinheiro sem passar pela produção de mercadorias, dominou o mundo atual. Nunca Marx foi tão certeiro! Mas, enfim, esse também foi, de certa forma, o início do capitalismo. Marx viu bem o que era um banqueiro ou algo parecido.
Trump quer taxar o que entra em seu país para obrigar as empresas, o capital, a voltar para os Estados Unidos, de onde um dia partiram ou para investimentos no exterior, ou simplesmente para o circuito mundial de aposta no dinheiro a juros, na compra de papeis, na participação do chamado mercado financeiro. Este, dá a lógica para o capitalismo. E as empresas não vão voltar para os Estados Unidos não só por causa disso, mas por causa de que todas as condições de mão de obra e logística são ainda mais vantajosas fora. Os Estados Unidos são um país de indústria de tecnologia de ponta, não de bonés com dizeres “Make America Great Again”, o MAGA. Estes, são feitos na China. Mas serão produzidos na Índia, na medida que a China caminha também para o campo da indústria de ponta – e com financiamento estatal, como os americanos fizeram quase tudo, e com as Big Techs. O Partido Comunista Chinês acha que a intervenção do estado na economia, como os americanos fizeram, é um bom negócio. Eles sempre olharam mais para a América que para a velha URSS. Xi Jiamping visitou os Estados Unidos quando jovem membro do partido. Olhou tudo. E ele sabe aprender.
O que incomoda Trump é que ele apostou na recondução dos Estados Unidos para uma era que não volta mais, e no entanto ele não tem dimensão disso. Ele pediu eleitores reacionários, saudosistas, ressentidos. Havia aos montes. E esses eleitores vieram a conduzi-lo. De pretenso líder ele passou a ser comandado pelo que agora se tornou de fato sua base eleitoral. No entanto, essa base eleitoral pode tomá-lo como traidor. Ele estrebucha. Suas cartas de taxação são o estrebucho.
Ele pode estar taxando os produtos importados que os Estados Unidos precisa, e gerando assim aumento de preços, inflação, e queda do nível de consumo e de vida. A médio prazo, é um tiro na orelha dele mesmo, a que não foi atingida por um dos atentados. Enquanto isso, ele está vendo nos Brics uma chance de globalização, de neoliberalismo, que se oporia a mercantilismo violento dele. Ele teme que esse neoliberalismo dos Brics suporte o estado interventor, faça as coisas de modo a criar chances para que o verdadeiro produto americano importante deixe de ser importante: o dólar. Daí a Carta para Lula, falando mentiras e anunciado taxação fora de órbita. São os Brics, e não Bolsonaro ou outras coisas que o enraiveceu. Nem mesmo a ideia de proteger as Big Techs o deixou tão raivoso quando a questão do questionamento da hegemonia do dólar. Até então essa conversa de substituição do dólar era mero devaneio. Mas com Lula no último encontro dos Brics (que a imprensa tentou desqualificar), essa tese começou a ser falada no Brics a sério, por países cujas economias não são nada pequenas. Trump não viu ali o fim da América, mas ele sentiu que seu projeto pode ter cheiro de fim da América. A reação dele é destemperada. Pode ser blefe para negociar. Mas, demonstrou algo que outros presidentes americanos jamais demonstraram: fraqueza. Franca fraqueza. Lula e nós todos fomos escolhidos para viver essa virada histórica. É mais significativo que a chegada do homem à Lua ou o fim da guerra do Vietnã ou mesmo o fim da URSS, é uma revolução noturna.
Essa virada não tem data. Mas está acontecendo. Um dia acordaremos e notaremos que ela se completou: não lembraremos de Obama salvando o neoliberalismo da crise dos Subprimes, não nos lembraremos da Covid (tomara!) e nem da Carta de Trump, mas já estaremos longe dos dias de reino do Tio Sam. Em determinado momento, diremos: está feito. Teremos de lembrar, então, que Lula no discurso do Brics, com autorização de todos os países desse grande grupo, disse que o dólar com moeda universal não era legítima. Lembraremos? Nós, que estamos vivendo, e que nos mantemos na esquerda, teremos essa obrigação. “Em que fórum tal ideia de dólar como moeda padrão foi decidida?” Essa pergunta irritou Trump sobremaneira. Poderíamos dizer que ele perdeu a compostura, se ele a tivesse.
Estamos caminhando para a tentativa dos Brics de introduzir um neoliberalismo capaz de ser mais inclusivo, entre nações e entre pessoas. Não é um objetivo socialista, claro, mas é um objetivo que socialistas poderão abraçar, pois tem ecos nítidos de busca de justiça social, que é o centro do projeto de esquerda. O Brasil caminha nessa trilha como herdeiro da democracia ocidental, os outros países dos Brics, menos. Vamos poder fazer muito, também, pela democracia, ao nos manter na ponta dos Brics.
Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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Excelente como sempre.
Obrigado Professor!
Obrigada professor, parabéns!!!
Maravilha explicação. Estamos fazendo parte desse tão esperado momento, estavam esperando o Lula desde 2018 para fazerema moeda dos Brics , mas ele foi preso. Viva os BRICS, Lula e seu Governo e todos nós da Esquerda.
Muito bem professor! A clareza de visão de sempre!
Excelente análise
A militância petista garantindo seu salário
Nossa, que coisa tola
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